
Vi ou não vi?
Você está no cinema sossegado, vendo Clube da Luta. Não sabe por que, mas sempre que o personagem de Edward Norton parece querer mudar de atitude você tem a nítida impressão de que Tyler Durden está lá, mandando ele fazer isso. Pois, mesmo que você ache que não, ele estava, por menos de meio segundo.A subliminariedade (o ato de utilizar imagens que o globo ocular não assimila, mas o cérebro interpreta como estímulo) esteve presente largamente na época de ouro da propaganda, fazendo com que mais e mais pessoas bebessem Coca-Cola e se iniciassem no vício do cigarro desde cedo. E foi exatamente nesta época que James Vicary, um especialista em marketing americano, apontou para os possíveis problemas da utilização constante do mecanismo subliminar, trazendo à tona efeitos negativos e, consequentemente, o medo constante da manipulação. Apesar de sua pesquisa ter sido colocada em xeque por ele mesmo, não há dúvidas de que a subliminariedade existe e pode mudar decisões se utilizada da maneira correta. Claro que há também (como tudo) aqueles que se aproveitam do tema pra gerar confusão e explicações irracionais, ignorando completamente aspectos culturais ou qualquer outra informação que pudesse ser útil e existem os grupos que se utilizam da simplicidade das pessoas em relação a religião vendo coisa onde não tem e alguns até envolvem certas lendas urbanas para o meio da subliminariedade. Até a linha de teorias da conspiração flertam com o assunto. Aqui no Brasil até existe uma Legislação que coíbe a utilização de mensagens subliminares latentes em propaganda, entretanto ela está presente do mesmo jeito ao associar jovens saudáveis à bebidas alcoólicas e cigarro. Além disso temos um grande especialista na área: Flávio Calazans pintou e bordou em cima do tema, gerando palestras muito legais e livros carregados de informação. Em “Propaganda Subliminar Multimidia” ele fala do histórico da subliminariedade, atrelando o assunto a campanhas políticas e até a mistificação do conteúdo subliminar nos quadrinhos. Nas HQ´s ela também aparece com certa freqüência (até na Turma da Mônica já foram encontradas), e no cinema há uma utilização moderada para causar impacto e o pessoal da Disney que adorava sacanear o estúdio por baixo dos panos, além do caso clássico de Bernardo e Bianca.
Mas nenhum filme foi tão feliz em retratar o assunto quanto o “clássico” Eles Vivem, de John Carpenter. A história é simples, mas muito avançada para sua época: os EUA estão um caos e as classes sociais estão mais diferenciadas do que nunca. Pobres estão mais pobres e ricos, mais ricos. No meio disso estão os que tem esperança de melhorias e os que apenas trabalham para viver. Mas por que classes tão divididas? Grupos acusam o governo de não ajudar a população a evoluir e o governo caça os manifestantes impedindo suas ações pró igualdade. E há os que acreditam que alguma força superior está deixando a América em pedaços, tratando o proletariado como escravo. Mas serão os ricos realmente humanos? E a mídia, por que não revela o que realmente está ocorrendo? Um trabalhador comum descobre um artefato que revela toda a verdade na frente de seus olhos, e essa verdade é triste, injusta e vai contra tudo o que ele acredita. E agora é hora de revidar. O plot em si não é nada demais, mas o filme trata do assunto com uma frieza única. Alguém está usando a população, fazendo dinheiro e poder em cima deles e utiliza a mídia para acobertar os fatos. Dentro de uma superficialidade do entretenimento, Carpenter insere mais perguntas para as dúvidas do momento americano do lançamento do filme: somos apenas meros fantoches que trabalham para que os ricos tenham uma boa vida? Ou acreditamos no nosso país, seja qual for a classe social em que eu esteja? É a terra da liberdade e dos bravos? Vale a pena conviver com isso?
Dentro deste contexto de reflexão cultural e comercial (Carpenter gosta de fazer isso, vide Fuga de Nova York), existe o entrenimento, claro, mas o plot é tão bem desenvolvido que a ação existe em função do roteiro, e não vice-versa, o que deixa o filme mais interessante ainda. Roddy Pipper (um ex-lutador de luta livre) é carismático suficiente para segurar a bola e, ainda, protagonizar uma das lutas mais longas e bem feitas do cinema. E se você reclamar dos efeitos simples, não conseguiu visualizar a obra de uma forma completa, pois a grande estrela ali é o conteúdo e o sarcasmo com que trata o assunto de dominação mundial e como podemos ser manipuláveis sem nem mesmo saber, através de mensagens que desconhecemos a olho nu, mas que nosso cérebro veste como se fosse um Armani.
É uma pérola e um clássico da cultura pop, um exemplo de criatividade e de como os filmes de entretenimento atuais estão esquecendo que, para se contar uma história precisa-se antes de um bom assunto, seja ele qual for, mas que tenha conteúdo. Depois pensamos nas cenas de ação e efeitos. Um filme original até os ossos e totalmente subestimado.
Em se tratando de subliminariedade, se você viu Clube da Luta, pode ter certeza de que viu a cena final, seus olhos querendo admitir ou não...

OS: Infelizmente, esse filme não foi lançado em DVD no Brasil. Deveria, porque o que tem de gente querendo assisti-lo não é brincadeira.
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Ficha Técnica
Nome original: They Live
País: EUA
Ano de lançamento: 1988
Diretor: John Carpenter
Elenco: Roddy Pipper, Keith David
























